O paradigma para Campina Grande

O paradigma para Campina Grande

Continuando a nossa jornada e debates sobre as oportunidades que a Ciência e a Tecnologia podem oferecer a Campina Grande, é importante traçarmos e analisarmos inicialmente alguns paradigmas necessários, pois serão exemplos de projetos concretos e de sucesso, e que podem ajudar a recuperar aquilo o que outrora a nossa cidade já foi.
O nosso exemplo de partida, que oferecerá junto com outras cidades tais paradigmas, será Santa Rita do Sapucaí, uma pequena cidade do sudoeste de Minas Gerais, mencionada na nossa última coluna, e que possuía em 2015 uma população estimada em pouco mais de 41 mil habitantes. A sua economia é fundamentada na agropecuária e especialmente na indústria, basicamente nas áreas de eletrônica, telecomunicações e informática, e esse processo de desenvolvimento é relativamente recente.
É interessante notar que Santa Rita do Sapucaí e Campina Grande, mesmo tendo a primeira aproximadamente apenas 10% da população da segunda, possuem características estruturais relativamente semelhantes e preponderantes a propiciar o crescimento econômico, tais como a vocação tecnológica e a presença de uma sólida estrutura de ensino superior.

Apenas na última década é que Santa Rita do Sapucaí “despertou” para essa vocação tecnológica, e daí alavancou consideravelmente a sua capacidade industrial, possuindo hoje mais de 150 empresas, na maioria ligadas à indústria de alta tecnologia.

Mas esse passo somente foi possível a partir da junção daquelas características que mencionamos, com o papel fundamental do poder público que pode propiciar e “azeitar” essa transição, o que denota a necessidade premente de que Campina Grande formule a sua política para o crescimento e o melhor aproveitamento das suas características vocacionais.

Santa Rita do Sapucaí, a partir da sua descoberta como uma nova fronteira tecnológica, pôde sair de uma renda per capita anual de R$ 14.844,00 em 2005 para R$ 31.336,41 em 2010, e enquanto isso, mesmo que tenhamos tido nesse período um forte crescimento econômico no país, Campina Grande possuía no mesmo ano apenas R$ 16.347,24 de renda per capita. Mesmo que isso possa parecer um problema, ou uma perda, preferimos renomeá-lo como uma oportunidade para que Campina Grande cresça, e novamente apareça.

Esses investimentos, e a estruturação de uma nova matriz econômica baseada na indústria de ponta, certamente trazem outros benefícios, inclusive de natureza social, como a evolução do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), que em Santa Rita do Sapucaí passou a ser de 0,721 em 2010, ante 0,654 no ano 2000.Mesmo que sempre o objetivo seja baseado em pilares como o crescimento e a estruturação, o nosso racional sempre tomará a necessidade de um planejamento prévio, e também pela criação de um pacto social, econômico e político entre os mais diversos atores.

Mas aí é que temos o destaque para Santa Rita do Sapucaí, pois de fato esse pacto é que propiciou essa nova matriz econômica e todos os ganhos decorrentes, e enquanto Campina Grande não institui-lo, as ações pontuais, por mais benéficas que sejam sempre minimizarão o potencial de ganho.

A indústria sempre será o melhor caminho para empregos sólidos e com remuneração per capita maior, pois o empresário não vislumbra o ganho imediato, e sim um planejamento de logo prazo, e nesse aspecto Campina Grande pode oferecer condições até melhores do cidades como Santa Rita do Sapucaí, sem qualquer demérito a essa última.

Como dito em nossa uma coluna, as instituições campinenses de ensino superior, públicas e privadas, são sólidas e capazes de fornecer o melhor do recurso humano, capacitado de forma direcionada a partir de parcerias academia-indústria, privilegiando um outro fator preocupante: a retenção de talentos.

Só fechando essa nossa segunda coluna, é de suma importância atentarmos para o fato de que a formação intelectual em Campina Grande, mesmo sendo de altíssima qualidade, gera um ônus para a cidade na medida em que todos esses profissionais tem que deixa-la em busca de oportunidades profissionais.

Vejam que o custo dessa formação não é barato, e em grande medida os ganhos desses profissionais só aparecem após alguns anos de atividade profissional e vão na sua boa medida para as novas cidades de moradia e atividade profissional.

Concluirmos então que Campina Grande é, em suma, uma exportadora de mão de obra qualificada, e daí a necessidade de revermos o nosso planejamento estratégico e passar a captar os ganhos desse capital intelectual.

Nas nossas próximas colunas continuaremos a analisar os paradigmas de outras cidades que conseguiram estabelecer um planejamento estratégico e um pacto que resultou em crescimento e projeção nacional.

Um cordial abraço e até a próxima.

Ary César Rodrigues é advogado, especialista em direito empresarial e legislativo, e atuou por cinco anos como consultor técnico e assessor legislativo na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado Federal

    Compartilhe: